Solidão na velhice: por que acontece e como cuidar
A solidão na velhice é mais comum do que se costuma falar. No Brasil, o Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil) ouviu 7.957 pessoas com 50 anos ou mais: 16,8% disseram se sentir sozinhas sempre, e outras 31,7%, algumas vezes (Sandy Júnior, Borim e Neri, Cadernos de Saúde Pública, 2023).
Sou Simone Pinheiro, psicóloga, e fiz a Residência Multiprofissional em Saúde do Idoso na UERJ. Este texto é para quem está envelhecendo e se sente só, e também para a filha, o filho ou o familiar que percebeu essa mudança em alguém que ama.
A solidão está pesando para você ou para alguém da sua família?
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O que é solidão na velhice
A Organização Mundial da Saúde descreve a solidão como o sentimento doloroso que surge da distância entre as conexões que a pessoa deseja e as que ela realmente tem (OPAS/OMS, 2025). Ou seja, é uma experiência interna: dá para se sentir só numa casa cheia e se sentir acompanhado morando sozinho.
Por isso vale separar três coisas que costumam ser confundidas:
Solidão: o sentimento de estar só, de não ter com quem dividir o que se vive.
Isolamento social: a falta objetiva de contatos, como passar dias sem conversar com ninguém.
Morar sozinho: um arranjo de moradia, que pode ser escolhido e vivido com tranquilidade.
Envelhecer também não é sinônimo de ficar sozinho. Os próprios autores do ELSI-Brasil lembram que a solidão acontece em todas as faixas etárias, apesar do estereótipo que a liga à velhice.
Por que a solidão aparece com o envelhecimento

Com o passar dos anos, algumas mudanças podem diminuir os vínculos ou tirar o sentido de rotinas que antes organizavam o dia:
a aposentadoria, que leva junto a convivência do trabalho;
a viuvez e a perda de amigos e irmãos;
filhos e netos que moram longe, às vezes em outro país;
limitações de saúde, de audição ou de mobilidade que dificultam sair de casa;
a sensação de não ser mais ouvido ou de não ter mais um papel na família.
No ELSI-Brasil, sentir-se sempre só esteve associado a depressão, a morar sozinho, à baixa escolaridade, ao sexo feminino, à saúde percebida como ruim e ao sono de má qualidade. Isso mostra que a solidão na velhice não é falta de esforço da pessoa: ela se mistura com perdas, com a saúde e com as condições de vida.
Sinais de que a solidão está pesando
Nem sempre a pessoa diz “estou me sentindo sozinha”. Muitas vezes a solidão aparece de outro jeito:
deixar de sair ou recusar convites que antes aceitava;
perder o interesse por atividades de que gostava;
dormir mal ou passar boa parte do dia deitado;
falar com frequência que “ninguém liga” ou que “já não serve para nada”;
queixas no corpo que aumentam quando está mais tempo só;
irritação ou tristeza que não passam.
A OMS estima que o isolamento social afete até uma em cada três pessoas idosas e associa a falta de conexão social a maior risco de doenças do coração, AVC, declínio cognitivo, depressão e ansiedade. Não é exagero cuidar disso.
Como a família pode ajudar
Quando quem se sente só é o pai, a mãe ou uma avó, a vontade de ajudar logo é grande. Algumas atitudes costumam ajudar mais do que muitos conselhos:
Escutar sem minimizar. Frases como “mas você tem a gente” podem soar como se o sentimento não fosse real.
Combinar contatos regulares, mesmo curtos: uma ligação em dia fixo pesa mais do que uma visita longa e rara.
Pedir opinião e ajuda. Sentir-se útil e ouvido fortalece o lugar da pessoa na família.
Incentivar, sem forçar, grupos, cursos, atividades da igreja ou do bairro de que ela goste.
Facilitar a tecnologia, ensinando com paciência a fazer chamadas de vídeo.
Se você mora longe, inclusive fora do Brasil, a distância não impede o cuidado. A regularidade do contato costuma importar mais do que a presença física.
O que ajuda quem se sente só
Se é você quem está sentindo a solidão, alguns passos pequenos podem abrir espaço:
retomar uma atividade de que gostava, mesmo em menor dose;
procurar um grupo com interesses em comum, presencial ou online;
ter um compromisso fixo na semana que exija sair de casa;
dizer a alguém de confiança como tem se sentido.
Na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), também olhamos para pensamentos que reforçam o afastamento, como “vou incomodar” ou “ninguém quer saber de mim”. Eles costumam fazer a pessoa recuar justamente quando mais precisaria se aproximar.
Quando procurar uma psicóloga
Vale procurar ajuda quando a solidão é frequente, quando vem junto de tristeza persistente, quando a pessoa perdeu o interesse pelas coisas ou quando o afastamento está aumentando. Também é um bom momento depois de uma perda importante, como a viuvez.
Na terapia, o primeiro passo é entender como a solidão aparece na vida dessa pessoa e o que ela mesma deseja dos seus vínculos. A partir daí, trabalhamos juntas, no ritmo dela, os pensamentos, a rotina e as relações. Atendo online, para todo o Brasil e para brasileiros que vivem no exterior, sempre em português, e a sessão pode ser feita de casa.
Se em algum momento você ou a pessoa que você cuida pensar em se machucar, procure ajuda imediata: o CVV atende gratuitamente, 24 horas, pelo telefone 188, e o SAMU pelo 192.
Perguntas frequentes
A solidão na velhice é normal?
Sentir-se só em alguns momentos faz parte da vida, em qualquer idade. Envelhecer não significa, por si só, ficar sozinho. A solidão merece atenção quando é frequente, quando vem junto de tristeza persistente ou quando a pessoa deixa de fazer o que gostava e se afasta dos outros.
Como ajudar um pai ou uma mãe idosa que se sente sozinha?
Escutar sem minimizar o que a pessoa sente costuma ajudar mais do que dar conselhos. Combinar contatos regulares, mesmo curtos, incentivar atividades de que ela gosta e respeitar o ritmo dela também fazem diferença. Se a solidão vier com tristeza persistente ou isolamento, vale sugerir uma conversa com uma psicóloga.
Terapia online funciona para pessoas idosas?
Para muitas pessoas idosas, sim. A sessão por videochamada evita deslocamentos e pode ser feita de casa. Quando a pessoa tem pouca familiaridade com o celular ou o computador, um familiar pode ajudar a abrir a chamada no começo. O importante é que ela se sinta à vontade para falar.
Cuidar da solidão na velhice é cuidar da saúde
A solidão na velhice não é um destino nem um sinal de fraqueza. Para recapitular:
Solidão é um sentimento; isolamento é falta de contato; morar sozinho é um arranjo de vida.
Perdas, aposentadoria, distância da família e limitações de saúde costumam estar por trás dela.
Os sinais nem sempre são falados: afastamento, desânimo e sono ruim merecem atenção.
Escuta, contato regular e sentir-se útil ajudam; quando pesa muito, a terapia é um apoio.
Ninguém precisa atravessar essa fase sozinho, nem quem sente a solidão, nem quem cuida.
Quer conversar sobre a solidão, a sua ou a de alguém da família? Fale comigo no WhatsApp e marque a primeira sessão.
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Simone de Abreu Pinheiro — Psicóloga · CRP 05/60758Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) · Residência Multiprofissional em Saúde do Idoso (UERJ/HUPE) · Atendimento online para todo o Brasil e para brasileiros no exterior



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